quarta-feira, 31 de março de 2010

O Brasil e a URSS no contexto da Guerra Fria

O Brasil e rompeu suas relações diplomáticas com a URSS em 1947, após o golpe militar organizado pelos EUA. A ruptura das relações, foi justificada como decorrente de acusações efetuadas pela imprensa soviética ao presidente Dutra. Contudo, a análise dos documentos indica um processo mais conturbado.Desde a abertura de relações diplomáticas entre os dois países, houve tensões no relacionamento. Os diplomatas brasileiros reclamavam da precariedade das instalações, da ausência de uma reciprocidade em relação ao tratamento que os soviéticos recebiam no Rio de Janeiro e da constante vigilância a que a embaixada estava submetida. Além disso, ocorreu um incidente quando o segundo secretário da embaixada, Soares de Pinna, foi detido no hotel onde funcionava provisoriamente a representação brasileira, acusado de embriaguez e arruaça, na noite de 26 de dezembro de 1946. A embaixada brasileira protestou, pois o diplomata chegou a ser amarrado pelas autoridades soviéticas. Não bastasse isso, os soviéticos exigiram que o Brasil pagasse os danos materiais supostamente provocados por Pina. Por seu lado, a embaixada brasileira afirmava que a confusão haveria sido planejada por agentes da polícia soviética, que o hotel funcionava como uma espécie de repartição da KGB e que foi utilizada violência contra o secretário. Os soviéticos exigiram a imediata saída de Soares de Pinna do país.

Esses fatos aumentaram a animosidade já existente entre os países, uma vez que a imprensa deu farta cobertura ao caso. Posteriormente, o fechamento do PCB e a repressão aos comunistas no Brasil contribuíram para piorar as relações. Contudo, deve-se observar que o pragmatismo adotado pela União Soviética nas relações com outros países, incluindo os EUA e a Grã Bretanha, não corrobora a tese de vincular a repressão ao comunismo no Brasil e as relações entre os dois países. Outro fator a ser considerado foi a posição soviética contrária à incorporação do Brasil no Conselho de Segurança da ONU. Dar crédito a ruptura de relações aos ataques da imprensa soviética ao presidente do Brasil é ater-se à aparência do fenômeno. Deve-se considerar que, se é verdade, e é, que a imprensa soviética se referiu ao presidente do Brasil de forma grosseira, também é fato que muitas autoridades brasileiras se referiam ao governo soviético em termos similares. Isto posto, pode-se concluir que a ruptura de relações com a União Soviética, por parte do governo brasileiro, está vinculada aos embates ocorridos no contexto da Guerra Fria.

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